Doença Periodontal e Prematuridade.


A gestação é um momento em que a saúde bucal deve ser acompanhada com muito cuidado, já que, neste período, algumas alterações mórbidas podem se tornar mais prevalentes. Anormalidades como hiperemia, edema e grande tendência ao sangramento gengival têm sido classificadas como gengivite gravídica. A prevalência dessa alteração varia entre 35 e 100%, tendo sua severidade gradualmente aumentada até a 36ª semana de gestação.
A necessidade dos cuidados bucais durante a gestação baseia-se em dois motivos principais: as gestantes devem se alimentar corretamente e, por isso, não seria admis­sível que apresentassem dor e/ou mobilidade dentária, e infecções periodontais poderiam se disseminar pela corrente sanguínea e estimular a produção de citocinas inflamatórias. Em decorrência das atuais publicações que relacionam algumas importantes complicações gestacionais (parto prematuro, recém-nascidos de bai­xo peso e pré-eclâmpsia) com a presença de citocinas também produzidas no periodonto infeccionado, esta revisão buscou avaliar se a literatura disponível permite suportar tal relação de risco.
Em presença de bactérias específicas, o hospedeiro inicia uma resposta de defesa que condiciona o fato de ocorrerem ou não lesões a nível celular e tecidular. Esta resposta pode ser inespecífica (inata), se trata do primeiro contato com os referidos microorganismos, ou específica (adaptativa), quando já ocorreu contato prévio entre o hospedeiro e os agentes bacterianos.
As bactérias e suas toxinas estimulam neutrófilos, fibroblastos, células epiteliais e monócitos. Os neutrófilos libertam as metaloproteínases (MPM) que levam à destruição do colagéneo. As restantes células envolvidas promovem a libertação de prostaglandinas (Pg), especialmente PgE2, que por sua vez induzem a libertação de citoquinas, entre as quais interleucina 1 (Il1), interleucina 6 (Il6) e factor de necrose tumoral (TNF), que conduzem à reabsorção óssea através da estimulação dos osteoclastos. Estas células, ainda que indiretamente, levam também à lise do colagéneo por estimulação das MPM. Em termos gerais, podemos diferenciar duas entidades distintas de Doença Periodontal, dependendo da gravidade da mesma, a Gengivite e a Periodontite. Atu­almente, centenas de trabalhos já foram publicados neste sentido, mas os resultados persistem conflitantes.
Sugere-se que infecções podem ser consideradas um dos fatores etiológicos do parto pré-termo espontâneo. Mesmo que a literatura considere como principais infecções relacionadas a esta complicação gestacional aquelas da região geniturinária, não se devem desmerecer sítios infecciosos em outros locais do organismo.
            Segundo Xiong X, as evidências na relação entre doença periodontal e complicações na gestação foram avalia­das em uma revisão de 25 estudos (13 casos-controle, nove coortes e três pesquisas clínicas), sendo que 18 encontraram evidências da associação e sete não pude­ram confirmá-las. As três pesquisas clínicas sugeriram que o tratamento periodontal pode reduzir em 50% o nascimento de prematuros.

              O papel das citocinas, principal elo entre doença periodontal e complicações gestacionais, também não foi totalmente desvendado. Não se pode esquecer que o principal fator a ser estudado no momento é a produção ou mesmo disseminação destas citocinas do sítio periodontal para o sangue da gestante. Apesar da dificuldade em se realizarem alguns tipos de estudos que possam suportar com credibilidade as evidências das associações suspeitas, é necessário que se desenhem novas pesquisas que avaliem a concentração exata das citocinas capazes de causar complicações obstétricas e determinar se esta quantidade pode ser produzida e disseminada pelo periodonto durante a vigência da infecção.

          Deve-se recomendar que todas as mulheres grávidas atentem para sua saúde bucal, com os cuidados de higiene, pesquisando sistematicamen­te sangramento gengival, dor e mobilidade dentária. A avaliação odontológica periódica da gestante pode permitir que o cuidado com a saúde dentária seja mais efetivo em prevenir eventuais repercussões de afecções bucais sobre sua saúde como um todo.
                                                                                                      Regina Maria Raffaele

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